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Basta ler a premissa na sinopse acima para entendermos que se trata de um filme forte. A temática gira em torno de toda essa perseguição e extermínio que os judeus sofreram, ou seja, é bem comum nos cinemas, que já nos ajudou a entendê-la o suficiente através de filmes inesquecíveis. Então, essa produção húngara poderia ter sido só mais um caso a passar despercebido, mas na verdade é mais um caso a deixar uma marca; a começar pelas suas premiações, incluindo o Oscar e Golden Globe de melhor filme em língua estrangeira. Premiação em si, muitas vezes, não é condição para um filme ser excelente. A questão aqui é que o filme é realmente muito bom e, também, original em um certo aspecto.

A originalidade foi a maneira como o diretor escolheu contar essa história, além de um final no qual o inesperado e coerente coexistem. O recurso de filmagem ou fotografia conta essa história de uma forma diferente, focando, na maior parte do tempo, uma proximidade visual no personagem Saul. Chegamos a acompanhar por muitos minutos a câmera na cola dele, como se estivéssemos o seguindo como curiosos sobre o que ele vai fazer. Com isso, nossa percepção de todo o horror ao seu redor fica a cargo dos sons e imagens que nossos olhos alcançam de forma limitada, pois estamos muito próximos do personagem. A excelente mixagem e edição de som colaboram para passar essa sensação. Gritos, tiros e explosões, falas incompreendíveis, barulho de chamas acesas, passos, etc. Ouvimos e compreendemos, mesmo não enxergando tudo. Como já vimos em grandes filmes de terror, como Invocação do Mal (2013, de James Wan), o poder da sugestão causa mais medo e horror do que uma cena explícita ou um susto forçado.

Também foi acertada a ideia de não utilizar trilha sonora. Só nos resta imaginar o horror ao estarmos praticamente imersos no filme. Essa forma chega a incomodar, mas esse é o objetivo mesmo. Pessoas já reclamaram que se sentiram naqueles jogos de videogame de survival horror, tipo os de zumbi onde estamos quase em primeira pessoa. Com a tela neste filme mais quadrada, a sensação aumenta, mas não é como o filme Mommy (2014, de Xavier Dolan) que nos dá uma folga em algumas cenas. Aqui, você tem que sentir mesmo o ambiente que não dá folga para nenhum dos personagens judeus.

Saul é um personagem que tinha tudo para representar todo o desespero de um judeu num campo de concentração nazista, onde a morte é tão comum que, até diante do corpo sem vida de seu filho, ele age a princípio com certa normalidade e frieza. Mas aqui aparece outro aspecto interessante e é onde tenho que avisar que começarão os spoilers

O filme dá alguns indícios de que o garoto pode não ser filho de Saul. E é aí que essa frieza é usada de forma fantástica na trama, pois Saul se apega então a um desconhecido, como se adotasse aquele filho na hora, e resolve a todo custo dar um enterro decente, nos moldes judeus, com rabino e tudo, para um semelhante. Essa é sua forma de se humanizar e deixar de ser só mais uma pessoa sem esperança de que aquilo é o fim (como ele mesmo disse: “já estamos todos mortos”).

Chega a ser agonizante acompanhar as peripécias de Saul para tentar concretizar esse enterro. Passa a ser um processo complicado no meio de um cenário mais complicado ainda. Com tantos obstáculos no meio daquele furacão, em vários momentos ele fica em situações extremas e ainda coloca os companheiros no meio, só para cumprir sua meta de enterrar o filho. Além disso, ele está forçadamente trabalhando para os Alemães num grupo denominado sonderkommandos, que eram os prisioneiros judeus designados para trabalhar como assistentes nos campos de concentração nazistas, inclusive encaminhando outros judeus para a câmara de gás e depois tendo que limpar tudo. No início do filme houve a preocupação de definir esse grupo, inclusive explicando que eles são designados até o dia em que forem exterminados, como todo o resto. Até por viverem ao lado dos Alemães, certa frieza toma conta dos sonderkommandos tão acostumados com as mortes ao redor.

Ao final, em meio a uma cena bem tensa e realista de uma resistência dos judeus, aparece um garoto e Saul sorri, como se naquele momento ele justificasse seu empenho em enterrar o filho e ficasse satisfeito, nos últimos segundos de sua vida nesta terra, pela grande intenção e ação. O garoto que aparece pode nos confundir, mas acredito que os fatos impedem de acharmos que seria espírito de seu filho, a começar pelo fato de que o garoto é diferente do outro fisicamente; além disso, ele se esbarra com um soldado. No final das contas, o garoto é mais uma vítima da guerra, obrigado a levar os soldados alemães até o esconderijo dos judeus, após ter visto eles passando por perto. Mas isso não importa, Saul o vê e sorri, feliz consigo mesmo em ter encontrado sua humanidade em um dos piores lugares possíveis e quase sem esperança.

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Fontes:
http://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/o-filho-de-saul/?key=105198
http://www.planocritico.com/critica-o-filho-de-saul/

Tags Relacionadas Auschwitz, Filho de Saul, filme Filho de Saul, filme Hungria, László Nemes, melhor filme estrangeiro, oscar 2015
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