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Basta assistir ao discurso de Guilhermo del Toro no Globo de Ouro 2018, quando recebeu o prêmio de melhor diretor por este filme, para saber que sua mente criativa se desenvolveu cedo, quando brincava e imaginava seus monstros. Ainda adolescente, se interessou por cinema e hoje é um dos maiores diretores, também roteirista e produtor mexicano. Foi criado pela sua avó e estudou efeitos e maquiagem com Dick Smith, maquiador de “O Exorcista”, “O Poderoso Chefão”, “Taxi Driver” e vários curtas. Neste seu novo filme ele tem a sua obra de arte e recebeu nada menos que 13 indicações ao Oscar e ganhou o Globo de Ouro de melhor diretor.

Tudo que um espectador quer ver nos cinemas está aqui. A trilha sonora de Alexandre Desplat presente na fantástica tomada inicial do filme dá uma sensação mais do que agradável quando se passa embaixo d’água e já pode servir de inspiração para James Cameron e seu Avatar 2 com muitas cenas assim que, segundo ele, “Nunca foi feito antes desse jeito”. Em “A Forma da Água” houve um cuidado extremo com detalhes, o cineasta cuidou deste filme como um pai cuida do filho amado. É uma mistura de sensações, pois o filme é crítico, tem momentos divertidos, tristes e vibrantes, então nem vale tentar definir gênero (Romance? Filme de monstro? Fantasia ou fábula? Aventura? Drama?). O grande “rei do show” é Guillermo del Toro que usa a água como elemento presente e norteador em várias cenas. Além de algumas tomadas de arrepiar embaixo d’água, temos uma impecável representação visual da chuva, cenas onde gotas são arrastadas em vidros pelo vento, referências da água em frases de calendário e até no detalhe das lágrimas dos personagens (e do espectador).

É um filme mágico, parece uma fábula e ocorre no contexto da Guerra Fria, na cidade americana de Baltimore que tinha pouca atenção na década de 60. O contexto e clima da época aparecem nas notícias que passam na TV, que são rapidamente sobrepostas quando o canal da TV é mudado para mostrar os filmes da época, fazendo assim uma homenagem singela ao cinema, principalmente aos clássicos musicais com um pouco de sapateado. Numa das melhores cenas, a protagonista imagina que está num musical dançando com o monstro. A romântica música “You’ll Never Know”, trilha do filme “Aquilo sim era vida” (1943) e que ganhou o Oscar de melhor canção original, cantada por Alice Faye, aparece aqui e lembramos do quanto é linda.

Podemos lembrar de O Labirinto do Fauno (2006), contudo este aqui não é uma fábula onde a criatura é um refúgio da personagem para sair da realidade cruel que a cerca. Neste existe felicidade na vida da personagem, seja com os amigos próximos, seja com a paixão entre ela e a criatura. É uma ficção, porém crível e incrível. E de forma inteligente são feitos alguns repúdios contra o preconceito a homossexuais, negros, ao machismo, ao que é considerado diferente. Quando os personagens interagem percebemos esses elementos e é como se todos os temas dramáticos – em evidência nos filmes indicados ao Oscar deste ano – fossem tratados num único filme (ao exemplo da valorização da mulher e dos homoafetivos), numa história de monstro para deixar a marca registrada do cineasta. Temos até uma referência à Amazônia e um respeito para com as diversas espécies que existem em nosso planeta, muitas desconhecidas ate então.

Todo o elenco está incrível, Sally Hawkins está sensacional, surpreendente. Octavia Spencer além da atuação garante as falas mais divertidas, assim como o Richard Jenkins como coadjuvante e num papel importante para a trama. Mas temos que reconhecer também a inclusão acertada de Doug Jones por trás da criatura e a atuação memorável de Michael Shannon, o verdadeiro monstro da história; esse cara nasceu para fazer papel de vilão e é uma pena não ter sido indicado. Os personagens são aquelas pessoas rejeitadas, mas que fazem algo extraordinário aqui. Toda forma de amor é aceita, até entre uma pessoa e uma criatura que é mais humana do que muitos humanos.

A forma física do anfíbio lembra o Abraham Sapien, personagem que ajuda o Hell Boy, cujo filme foi dirigido também pelo Guillermo del Toro. A comunicação entre a personagem muda Elisa e a criatura é incrível, entre expressões, gestos e ao som de músicas clássicas e românticas. Não só isso, mas também a conexão que sons e barulhos fazem entre cenas é incrível, sabendo começar e parar na hora certa, às vezes começando numa cena e terminando no início de outra. Falando em música, aparece “Chica Chica Boom Chic”, cantada por Carmen Miranda e homenageando a Bahia e o samba. Lembrando que Carmen Miranda atuou em filmes americanos e musicais até 1953.

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