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O filme da minha vida (Brasil, 2017)

O filme da minha vida (Brasil, 2017)

Na história, o jovem Tony decide retornar a Remanso, Serra Gaúcha, sua cidade natal. Ao chegar, ele descobre que Nicolas, seu pai, voltou para França alegando sentir falta dos amigos e do país de origem. Tony acaba tornando-se professor e vê-se em meio aos conflitos e inexperiências juvenis.

Borboletas, bicicletas e fotografias:

Até o momento, este filme representa o mais próximo que o cinema nacional pode chegar de Cinema Paradiso (Itália, 1988). A produção é baseado no livro “Um pai de cinema” de Antonio Skármeta, escritor chileno que também tem “O carteiro e o poeta” como obra, mais uma transformada num grande filme. Selton Mello dirige e também atua, dessa vez como um personagem coadjuvante. Na entrevista aqui em Salvador, quando veio para a pré-estreia de seu filme, ele disse o quanto é importante dirigir atores sabendo o que eles passam, suas dificuldades e anseios, já que ele passou muito por isso e é reconhecido como um excelente ator.

O roteiro é muito bom, os personagens são marcantes, o elenco ficou ótimo. Os atores Vicent Cassel e Selton Mello dispensam comentários, então vamos parabenizar as grandes presenças femininas (Ondina Clais, Bruna Linzmeyer, Bia Arantes, Martha Nowill), assim como a participação de Rolando Boldrin (o maquinista Giuseppe que tem uma das falas mais bonitas do filme). Cada um tem a sua história, personagens explorados com um bom cuidado pelo diretor. Mas a atenção maior vai para o protagonista, de nome forte (Tony Terranova), interpretado por Johnny Massaro, que brilha no filme. O escritor Antonio Skármeta também faz uma ponta, não vou contar qual o personagem. Acho importante essa presença do escritor durante as filmagens, pois não há conselheiro melhor para o roteiro.

Selton Mello afirma que decidiu fazer o filme após ler o livro, quando se emocionou com a história. Os títulos são diferentes e você vai entender bem o título do livro quando assistir ao filme. Lembrei um pouco de Cinema Paradiso (1988), o grande filme italiano e um dos meus favoritos, já que ambos fazem uma homenagem linda ao cinema e não posso contar mais a respeito. O filme tende a ser alvo de spoilers e não estou aqui para isso.

A base da história é o crescimento de Tony, sendo a ausência do pai o que mais o incomoda, o espectador vai sentir isso a cada gesto, palavras e lembranças do garoto. Apesar dessa amargura, ele leva uma vida de descobertas, prazeres, pequenas aventuras e outros sofrimentos, mas tudo volta a esse mistério, esse abandono que não faz sentido quando contemplamos as boas lembranças que ele tem do pai. Muitas cenas belas, como ele aprendendo com o pai a andar de bicicleta, ele contemplando garotas ensaiando para uma apresentação, ou a relação divertida com seus alunos e com seu amigo Paco (Selton Mello), assim como o carinho com a mãe, também amargurada.

O filme trata de erros e escolhas difíceis e a temática de desestruturação de uma família é uma das preferidas do diretor. Possui reviravoltas interessantes. A fotografia e produção ambientam impecavelmente a época, coisa de cinema de qualidade. Mostra, também, paisagens lindas ao redor do trem em movimento. Não houve gravação em estúdio, todas as cenas utilizaram locais reais alugados e, mesmo assim, o resultado foi uma ambientação perfeita de Remanso, Serra Gaúcha, nos anos 60. Roupas, costumes, tipos de conversa, enfim, somos transportados e presos nessa época, imersos no filme sem precisar de efeitos 3D.

Muita música de época também, brasileiras e francesas. Apesar de funcionar, passou um pouco do ponto, junto com algumas cenas que se arrastaram um pouco. Contudo, essa é uma falha que deve passar despercebida dentro de tantos acertos. Com certo ar de romance e poesia, o filme é um presente num momento que precisamos tanto de algo assim no mundo (acabei de roubar mais uma das falas de Selton Mello).

Tags Relacionadas Antonio Skármeta, Bruna Linzmeyer, Cinema Paradiso, crítica, filme nacional, filmes nacionais, Johnny Massaro, O carteiro e o poeta, O filme da minha vida, Remanso, resenha, Rolando Boldrin, Selton Mello, Tony Terranova, Um pai de cinema, Vicent Cassel
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