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Milagre:

Para começar, o filme é um clássico do diretor Vittorio de Sica, o mesmo de Ladrões de Bicicletas (1971), que foi um dos primeiros diretores a usar elementos de neorrealismo nos filmes italianos. Em “Milagre em Milão”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é interessante como o diretor usa elementos de ficção na sua obra, e ainda mostra uma Itália suja, assolada pela miséria. A história de Totó é como uma fábula, ele surge no meio de uma plantação, no quintal da casa de uma senhora. Ela o adota e vemos, assim, a importância da criação, do exemplo que a mãe dá, mesmo não sendo a progenitora (não sabemos de onde veio o garoto e ele nem se importa com isso). Numa bela cena, o garoto derrama o leite na casa, e a senhora, ao invés de reprimi-lo ou castigá-lo, usa o cenário formado para brincar com o garoto e ensinar uma lição: “Que grande lugar é o mundo!”, diz a senhora. Após ela falecer, Totó vai para o orfanato e só sai quando adulto. Ele não sai revoltado, desesperado. Pelo contrário, ele abraça a vida que é possível ter. Se acomodando em um terreno tomado por mendigos, sua maneira de olhar o mundo, seu comportamento, vai contagiar a todos, com direito a um acontecimento especial – um milagre – que será concretizado através do garoto. Na verdade, o garoto em si já é o milagre, sua forma de encarar a vida, ajudando ao próximo, não se colocando acima de ninguém e considerando todos importantes. É a figura da gentileza, da simplicidade, a pregação da igualdade. Diante de alguém com menor estatura, o garoto se abaixa.

Os pobres, oprimidos, estão numa situação difícil: terão que abandonar sua morada por conta de um burguês que anseia pelo local. Só mesmo um milagre para salvá-los. Quando tudo parece perdido, Totó recebe uma ajuda dos céus, começando a produzir os milagres. Cenas engraçadas surgem, com seus efeitos especiais que, para a década de 50, foi também como um milagre para o cinema. Temos cenas como a do negro e de uma branca que se aproveitam do milagre para tentar ficar juntos, outra com soldados que são obrigados a cantar ópera para não falar o comando de ataque aos pobres moradores, entre outras. Numa cena, vemos que um garoto é usado como uma espécie de campainha (preso à uma corda, ele avisa quando alguém chegou à porta e puxou a corda). Bem engraçado!

Criatividade, cenas divertidas e muita reflexão. Sem contar o ator Francesco Golisano, que ficou muito bem no papel de Totó, nos contagiando com a alegria de viver, em contraste com a vida que leva, como se o maior dos problemas na verdade nem fosse um problema. O filme trata simplicidade e prega a verdadeira revolução. Os pobres, em uma cantoria agradável, mostram o que querem:

“Tudo o que precisamos é de um barraco
Para viver e dormir
Tudo o que precisamos é de um pedaço de chão
Para viver e morrer
Tudo o que pedimos é um par de sapatos
Umas meias e um pouco de pão
É tudo o que precisamos para crer no amanhã
É tudo o que precisamos para crer no amanhã.”

Só mesmo um milagre dos céus para ajudá-los, e uma mensagem de que nós podemos, com nossas atitudes, ser o milagre da vida. Perante Deus, somos todos iguais, como diz a frase no filme: “Existe um reino onde ‘bom dia’ quer dizer realmente ‘bom dia’!”.

Tags Relacionadas Milagre em Milão, Vittorio de Sica
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