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Márcio Cavalcante captura a energia do povo numa das maiores festas do mundo: o Carnaval de Salvador. Esse documentário, primoroso por vários aspectos, coloca o Carnaval como protagonista do filme. Sim! Ele é o personagem principal que narra sua própria história, então ouvimos a sua voz enquanto acompanhamos imagens, principalmente da cidade de Salvador – um palco maravilhoso – com sons, músicas e depoimentos de pessoas ao longo do tempo. Quem empresta a voz a esse personagem é nada menos que um dos maiores atores brasileiros, João Miguel. Ele incorpora a baianidade no jeito de falar e demonstra alegria, tristeza, muitas emoções, com bastante naturalidade a cada momento da história do Carnaval. Ele narra sua própria transformação ao longo dos anos, das origens até a época atual. Ano a ano vamos lembrando ou aprendendo sobre os grandes momentos dessa festa num único filme.

Não tem como ser baiano e não se emocionar com esse documentário, mesmo não sendo folião. Rico em conteúdo, mostra a história da Bahia, a história da cidade de Salvador, nosso povo, e vai se encaixando com a história e transformação da festa. O conteúdo histórico vai surpreender a muitos. O ponto de vista do povo valida as palavras do narrador através de depoimentos e atitudes mostrados em tela. Comerciantes que trabalham durante a festa, foliões, artistas, mas principalmente esse povo que fica na pipoca. As rápidas entrevistas foram bem selecionadas e bem naturais, muitas divertidas a nos arrancar gargalhadas do nada.

Carregado de baianidade, nossa cultura é esbanjada no filme. Soteropolitanos vão se sentir em casa e todo espectador vai sentir aquele acolhimento típico nosso. Mostra o quanto o Carnaval é mais diversidade aceita do que rejeitada. Tudo que foi posto em tela pareceu bastante respeitoso. Como dito pelo diretor, o filme se propõe explicar o motivo dessa histeria coletiva que sustenta o Carnaval há anos. O “Sou” do título “Sou Carnaval de São Salvador” é o que somos nós todos, cada um tem um pouquinho dele nas veias.

Márcio Cavalcante, diretor e roteirista, teve o insight em 2013 durante uma conversa com um amigo. De 2014 a 2018 mergulhou profundamente nessa história real, começando por músicas e vídeos antigos encontrados no Youtube e assim montou uma pequena equipe para produzir o filme. Junto com a diretora de produção, Sheila Gomes, com montagem por Jefferson Neto e outros colaboradores, vemos um resultado que parece não ter deixado nada importante de fora: a influência de várias culturas e raças na música e na dança, músicas e artistas inesquecíveis que vão aparecendo no seu momento de auge, a pegação, o significado dos Filhos de Gandhy, a violência, a corda segregando pessoas e raças e depois o abandono da corda por alguns trios… de tudo um pouco está lá. Artistas como Ivete Sangalo, Dodô e Osmar, Netinho, Luiz Caldas, Armandinho, Morais Moreira… enfim… até a recente ascensão do carnaval suburbano com o sucesso de Igor Kannário e sua representação como inclusão social.

Interessante o trabalho de edição e montagem, deixando o filme agradável e sem nada de cansativo. Muito material de vídeo antigo não caberia bem na telona esticada em horizontal, sendo assim a montagem foi certeira em exibir certos conteúdos centralizados com uma moldura simulando um televisor antigo, como se o Carnaval estivesse relembrando seus grandes momentos através de uma exibição na TV.

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