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Canadá, ano de 2015. Diane Després (Anne Dorval) é surpreendida com a notícia de que seu filho, Steve (Antoine-Olivier Pilon), foi expulso do reformatório onde vive por ter incendiado a cafeteria local e, com isso, provocado queimaduras de terceiro grau em um garoto. Os dois voltam a morar juntos, mas Diane enfrenta dificuldades devido à hiperatividade de Steve, que muitas vezes o torna agressivo. Os dois apenas conseguem encontrar um certo equilíbrio quando a vizinha Kyla (Suzanne Clément) entra na vida de ambos. Dirigido por Xavier Dolan.

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Existe um conflito entre a mulher e o patriarcado que é histórico e universal. Aqui, ele se mostra muito presente numa família brasileira, no final da década de 1940, que possui duas filhas. O diretor Karim Aïnouz, de Madame Satã (2002) e Praia do Futuro (2014), destaca a força das mulheres num filme baseado no romance “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha. A Eurídice Gusmão do título da obra é uma das personagens que divide o protagonismo com a sua irmã Guida, interpretadas respectivamente por Carol Duarte e Julia Stockler.

Propositalmente carregado de drama e cenas de sofrimento, contudo numa dosagem tranquila de assistir, é como se Karim tivesse extraído a parte que vale a pena das melhores novelas brasileiras. A narrativa alterna entre a vida de Eurídice e Guida, após a separação delas por conta de uma mentira cruel. Existe um elo de ligação lindo entre as duas, a todo momento procurando se encontrar de novo, representando uma luta, uma força, contra uma sociedade conservadora e machista que as afasta, assim como esse tal destino. Ao mesmo tempo, essa separação faz com que cada uma encontre outras pessoas tentando sobreviver na mesma sociedade. Separadas, elas se sentem mulheres sozinhas no mundo, mas não estão, principalmente a Guida que foi expulsa da família e acaba encontrando outra.

Não somente a dosagem do melodrama é tranquila, mas também é honesta. A forma como é abordado o machismo no filme não contém exageros. Não envereda pela violência física e emocional, mas pela forma como as relações são mostradas. Uma mãe que só consegue ser a sombra do marido, uma mulher que aceita ser aquela que vai servir a mesa e lavar os pratos, um homem que não acredita que sua esposa pode correr atrás do próprio sonho. Assim também são as cenas de sexo, em sua maioria não dá prazer em ver, são naturais demais e reforçam a realidade onde as personagens se encontram.

O que Bacurau (de Kleber Mendonça Filho) tem de ousado e focado, este aqui tem de delicado e universal.

Apesar de atuações esforçadas e acima da média, em personagens marcantes, nenhuma das atrizes principais chama a atenção como poderia. Já os coadjuvantes, em sua maioria, estão sublimes. Gregorio Duvivier, como o marido de Eurídice, está muito bem no papel. Destaque maior ainda para Bárbara Santos, famosa em teatros e que faz aqui seu primeiro papel num filme, como Filomena (tia Filó), uma mulher forte, figura marcante numa atuação de muito destaque. Nenhum personagem foi desperdiçado.

Enfim, o grande momento, como esperado, foi de Fernanda Montenegro. Não tenho palavras para descrever sua presença em tela, mesmo tendo sido pontual. Ele vem com toda sua experiência na cena que considero a mais importante e emocionante do filme. A melhor atuação feminina do ano. Mesmo que você se canse lá pela metade do filme, afinal são 2 horas e 20 minutos, aguarde para ver a Fernanda e conferir também um final sublime, muito bonito. Encantador. Delicado.

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